Fornecedores, contas bancárias, produtos e parâmetros podem ser alterados por usuários legítimos; controlar quem entra é importante, mas controlar o que cada pessoa pode mudar é ainda mais crítico
Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade
Um colaborador acessa o ERP com usuário e senha próprios. Não houve invasão. Não houve malware. A autenticação funcionou. Ainda assim, ele consegue alterar a conta bancária de um fornecedor e liberar a mudança sem qualquer segunda validação.
Nesse cenário, o problema não é quem entrou no sistema. É o que o sistema permitiu fazer depois da entrada.
A ANPD define controle de acesso como uma medida técnica que combina autenticação, autorização e auditoria. Essa distinção é importante porque possuir usuário individualizado resolve apenas parte do problema.
Autenticar e autorizar são controles diferentes
Autenticação responde quem é o usuário. Autorização responde o que esse usuário pode fazer. Auditoria permite reconstruir o que foi realizado.
Uma empresa pode ter excelente política de senhas e, ainda assim, manter permissões excessivas dentro do ERP.
Cadastro mestre é parte da infraestrutura de controle
Fornecedores, clientes, produtos, contas bancárias, centros de custo, plano de contas, NCM, regras fiscais e rubricas são dados reutilizados em várias rotinas. Alterações nesses cadastros podem produzir efeitos financeiros, fiscais, contábeis ou trabalhistas.
Por isso, nem todo usuário que consulta um cadastro precisa também poder alterá-lo.
O risco aparece quando uma pessoa consegue fazer o processo inteiro
Imagine um fluxo em que o mesmo usuário consegue cadastrar fornecedor, alterar conta bancária, lançar documento e liberar pagamento. Mesmo sem intenção de fraude, a ausência de segregação reduz a chance de detectar erro.
| Atividade | Risco se concentrada em um único usuário |
|---|---|
| Cadastrar fornecedor | Criação de registro sem validação |
| Alterar dados bancários | Desvio de pagamento ou erro de destino |
| Lançar documento | Registro indevido ou duplicado |
| Aprovar pagamento | Ausência de segunda barreira |
| Alterar regra fiscal | Propagação de erro para várias operações |
Privilégio mínimo é mais útil que perfil genérico
Perfis como “administrador”, “financeiro” ou “fiscal” podem ser amplos demais. O princípio prático é conceder apenas as permissões necessárias para a função.
Quando uma atividade muda, a permissão também deveria ser revista.
Ex-funcionário não deveria continuar existindo no sistema
Desligamentos, transferências de área e mudanças de responsabilidade exigem revisão de acessos. Contas antigas aumentam a superfície de risco e dificultam a responsabilização.
Esse ponto dá continuidade ao tema de senha compartilhada e usuários individualizados, avançando da identificação do usuário para o limite de suas ações.
Mudanças críticas merecem dupla validação
Nem toda alteração exige aprovação. Mas mudanças com potencial financeiro ou regulatório podem justificar uma segunda barreira.
- conta bancária de fornecedor;
- dados de pagamento;
- parâmetros fiscais;
- regras de desconto ou limite;
- cadastros usados por várias unidades;
- criação de usuários administrativos.
O objetivo não é burocratizar tudo. É concentrar controle onde o impacto é maior.
Permissão temporária é melhor que privilégio permanente
Há situações em que um usuário precisa de acesso elevado apenas para uma tarefa específica. Manter o privilégio indefinidamente aumenta risco sem necessidade.
Sempre que o sistema permitir, permissões temporárias ou revisão periódica ajudam a reduzir esse acúmulo.
Fornecedor de software também precisa respeitar limites
Suporte técnico frequentemente recebe acesso privilegiado. A empresa deveria saber quando esse acesso é utilizado, por quem, por quanto tempo e se as ações ficam registradas.
A mesma preocupação aparece quando um fornecedor de tecnologia concentra processos críticos.
Permissões afetam diretamente o fiscal e a contabilidade
Uma alteração de NCM, conta contábil, centro de custo ou regra tributária pode se propagar para documentos e escriturações. Por isso, controles de acesso também sustentam a qualidade do trabalho de assessoria fiscal e tributária e consultoria e planejamento contábil.
Uma PME pode começar com quatro perguntas
- Quem pode consultar?
- Quem pode alterar?
- Quem precisa aprovar mudanças críticas?
- O sistema registra quem fez a alteração?
Essas quatro respostas já permitem separar acesso, autorização e rastreabilidade.
Revisão de permissões precisa acontecer também fora da emergência
O CTIR Gov recomenda medidas de proteção de identidade e monitoramento de sessões e eventos de autenticação em cenários de comprometimento. No ambiente empresarial, revisar permissões periodicamente reduz a dependência de uma revisão feita apenas depois de um incidente.
Na avaliação de Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, o melhor controle de acesso não é aquele que simplesmente impede pessoas de entrar, mas o que garante que cada usuário consiga executar apenas as ações necessárias para sua responsabilidade, com registro suficiente para revisão posterior.
FAQ
1. Usuário e senha próprios já resolvem o controle de acesso?
Não. Eles ajudam a identificar a pessoa, mas ainda é necessário definir quais ações e dados cada usuário pode acessar ou alterar.
2. Todo usuário precisa de perfil administrador?
Não. Perfis administrativos devem ser restritos às atividades que realmente exigem privilégio elevado.
3. Alteração de conta bancária merece aprovação?
Em muitos ambientes, sim. Mudanças com impacto financeiro elevado podem justificar segunda validação antes de produzir efeito.
4. O acesso de ex-funcionários precisa ser removido?
Sim. Desligamentos e mudanças de função devem acionar revisão dos acessos e permissões relacionados.
5. O fornecedor pode ter acesso permanente ao ERP?
Isso depende do modelo de suporte, mas a empresa deve conhecer o nível de privilégio, controlar quando possível e manter rastreabilidade das ações relevantes.
Fontes consultadas
ANPD - Glossário
Definição de controle de acesso com autenticação, autorização e auditoria
ANPD - Guia de Segurança da Informação
Medidas de segurança orientadas a agentes de tratamento de pequeno porte
CTIR Gov - Recomendação 04/2026
Proteção de identidade, monitoramento e preservação de logs em cenários de comprometimento