Vendas a 90 dias e Reforma Tributária: impacto no capital de giro

 

Mesmo quando o cliente paga exatamente no prazo, condições comerciais longas podem aumentar a necessidade de financiamento da operação; a empresa precisa separar calendário de recebimento, apuração tributária e custo do capital

Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade

Um cliente é bom pagador. Nunca atrasa. Mas exige 90 dias para quitar as compras.

A empresa aceita porque a margem é positiva e o risco de inadimplência parece baixo.

O problema é que bom pagador não significa pagamento rápido.

Durante três meses, a empresa precisa financiar estoque, folha, fornecedores e demais despesas enquanto espera o dinheiro entrar. Com IBS, CBS e split payment, essa análise ganha uma camada tributária adicional.

Prazo comercial e prazo tributário não são a mesma coisa

A LC nº 214/2025 determina que o split ocorre na liquidação financeira, mas também estabelece que isso não afasta a responsabilidade do contribuinte pelo eventual saldo a recolher, observados fato gerador e vencimento.

Portanto, conceder 90 dias ao cliente não significa controlar o calendário tributário da operação.

Vender em 90 dias é financiar o cliente por 90 dias

Mesmo sem atraso, o capital da empresa permanece fora do caixa por mais tempo.

Se fornecedores vencem em 30 dias e clientes pagam em 90, existe um intervalo de 60 dias que precisa ser financiado por capital próprio, crédito bancário, antecipação de recebíveis ou outras fontes.

Um exemplo mostra a diferença entre margem e liquidez

Condição Empresa A Empresa B
Venda R$ 500 mil R$ 500 mil
Prazo do cliente 30 dias 90 dias
Margem comercial igual igual
Tempo até converter venda em caixa menor maior
Necessidade potencial de capital de giro menor maior

As duas empresas podem apresentar o mesmo faturamento e a mesma margem, mas necessidades financeiras muito diferentes.

O custo do prazo deveria entrar no preço

Se a empresa concede prazo longo sem medir quanto custa financiar esse intervalo, parte da margem pode ser consumida silenciosamente.

Essa decisão é especialmente relevante quando a taxa de juros é elevada ou quando a empresa depende de antecipação recorrente.

Antecipar recebíveis resolve tempo, mas tem custo

A matéria de 21/08 mostrou que antecipar recebíveis não elimina o split payment. Financeiramente, a antecipação pode reduzir o ciclo de caixa, mas cobra um preço por isso.

Assim, prazo comercial e antecipação deveriam ser avaliados em conjunto.

Inadimplência é um cenário de estresse, não o único risco

A análise sobre split payment e inadimplência mostrou o problema quando o cliente não paga.

Aqui, o cliente paga. O risco é diferente: a empresa aceita financiar o prazo por um período longo e precisa saber se possui caixa para isso.

Três prazos podem exigir três preços econômicos diferentes

Prazo Efeito gerencial
30 dias ciclo financeiro menor
60 dias maior capital empregado
90 dias custo do capital e margem ganham peso
90 dias + atraso cenário de estresse com risco adicional

A legislação não obriga a empresa a cobrar preços diferentes. Mas a gestão deveria conhecer o custo econômico de cada condição.

A política comercial precisa conhecer o caixa

Uma equipe de vendas pode conceder prazo para preservar competitividade. A tesouraria precisa informar quanto esse prazo custa. A contabilidade precisa mostrar margem e capital de giro. O fiscal precisa demonstrar a posição tributária.

Quando essas decisões são tomadas isoladamente, a empresa pode aumentar faturamento e piorar liquidez.

O indicador mais importante pode ser o ciclo de conversão em caixa

Prazo médio de recebimento, prazo médio de pagamento, giro de estoques e necessidade de capital de giro ajudam a explicar por que duas empresas com a mesma DRE podem enfrentar situações de caixa opostas.

Prazo precisa ser uma decisão de direção, não um hábito comercial

Na avaliação de Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, a Reforma Tributária é uma oportunidade para rever políticas de prazo usando dados reais de margem, recebimento e capital de giro.

A Consultoria e Planejamento Contábil da AUDICONT Contabilidade pode apoiar essa leitura gerencial, conectando demonstrações contábeis, recebíveis, custos financeiros e projeções de caixa às decisões comerciais.

FAQ

1. Vender em 90 dias significa que IBS e CBS só serão tratados em 90 dias?

Não se deve fazer essa generalização. O split ocorre na liquidação financeira, mas eventual saldo a recolher segue as regras de fato gerador e vencimento.

2. Cliente bom pagador elimina o risco de caixa?

Não. Mesmo adimplente, um cliente com prazo longo exige financiamento da operação por mais tempo.

3. A empresa deve reduzir todos os prazos?

Não necessariamente. O objetivo é medir o custo e a capacidade de financiar cada condição.

4. Antecipar recebíveis resolve o problema?

Pode reduzir o ciclo financeiro, mas possui custo e não elimina a obrigação do split payment.

5. Prazo deveria influenciar preço?

É uma decisão empresarial. A gestão deveria ao menos conhecer o custo financeiro associado a cada prazo.

6. Que indicadores acompanhar?

Prazo médio de recebimento, prazo de pagamento, giro de estoque, margem, custo do capital e necessidade de capital de giro.

Fontes consultadas

Presidência da República - Lei Complementar nº 214, de 16 de janeiro de 2025.
A legislação institui IBS e CBS e disciplina, entre outros pontos, o split payment, a base de cálculo e as formas de extinção dos débitos.

Comitê Gestor do IBS - Resolução CGIBS nº 6, de 30 de abril de 2026.
O Regulamento do IBS detalha apuração, extinção dos débitos, split payment, devolução e cancelamento.

Comitê Gestor do IBS - Plataforma Pública do Split Payment.
A página oficial reúne documentação técnica e informações operacionais do mecanismo.

Presidência da República - Decreto nº 12.955/2026.
O decreto regulamenta a CBS e disciplina aspectos operacionais e tributários aplicáveis à contribuição.