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Exportações crescem 32,2%: impactos do dólar nas empresas

Exportações cresceram 32,2% e importações avançaram 20,7% no início de agosto. O movimento reforça uma questão que vai além de exportadores e importadores: quanto da margem das empresas brasileiras depende do mercado internacional?

Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade

O comércio exterior brasileiro começou agosto de 2026 com crescimento tanto das vendas quanto das compras internacionais.

Entre os dias 1º e 9 de agosto, as exportações brasileiras somaram US$ 9,30 bilhões, enquanto as importações alcançaram US$ 6,78 bilhões, segundo dados preliminares divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.

Na comparação pela média diária com agosto de 2025, as exportações cresceram 32,2% e as importações avançaram 20,7%. A diferença entre as duas operações produziu superávit comercial próximo de US$ 2,52 bilhões no início do mês.

Os números mostram um comércio exterior movimentado, mas a principal questão para as empresas não está apenas no tamanho do saldo. Exportações, importações, câmbio e preços internacionais podem alterar receitas, custos e margens mesmo de negócios que nunca realizaram diretamente uma operação com outro país.

Exportações e importações cresceram simultaneamente

Observar apenas o superávit comercial não revela toda a dinâmica do período. No início de agosto, tanto as exportações quanto as importações aumentaram em relação à média diária registrada no mesmo mês do ano anterior.

Indicador 1º a 9 de agosto de 2026
Exportações US$ 9,30 bilhões
Importações US$ 6,78 bilhões
Saldo comercial aproximado US$ 2,52 bilhões
Variação das exportações +32,2%
Variação das importações +20,7%

Exportações maiores podem representar expansão da demanda externa, aumento de preços, crescimento de volumes comercializados ou uma combinação desses fatores. Importações maiores, por sua vez, também podem estar relacionadas à compra de equipamentos, máquinas, matérias-primas e componentes utilizados na produção brasileira.

Importação maior não significa necessariamente um problema

Existe uma interpretação simplificada segundo a qual exportar é sempre positivo e importar seria necessariamente negativo. A realidade econômica é mais complexa.

Uma indústria brasileira pode importar uma máquina para ampliar a produtividade. Outra empresa pode adquirir componentes estrangeiros porque sua produção aumentou. Uma companhia de tecnologia pode contratar infraestrutura internacional indispensável à própria operação.

Em outras situações, a entrada de produtos estrangeiros pode ampliar a concorrência enfrentada por fabricantes nacionais. O efeito depende do produto, do setor e da finalidade econômica da operação.

Exportar mais também não significa lucrar mais automaticamente

Uma empresa pode aumentar significativamente sua receita externa e ainda apresentar redução de margem. Isso acontece porque faturamento e lucro respondem a variáveis diferentes.

No resultado de uma exportação podem entrar preço internacional, câmbio, custo de produção, matérias-primas, logística, seguros, despesas financeiras, condições comerciais e prazo de recebimento.

Se os custos crescerem mais rapidamente que a receita, uma expansão do valor exportado não necessariamente representa melhora proporcional da rentabilidade.

O dólar pode alterar a margem sem mudar uma única venda

Uma das principais conexões entre comércio exterior e gestão empresarial está no câmbio.

Imagine uma indústria que vende apenas no Brasil e utiliza matéria-prima importada. O volume vendido pode permanecer exatamente igual e o preço cobrado dos clientes também. Mas, se a moeda estrangeira utilizada na compra do insumo se valorizar e a empresa não conseguir repassar o aumento imediatamente, sua margem diminui.

É esse tipo de efeito que torna o câmbio uma variável empresarial mesmo para negócios que aparentemente não possuem ligação direta com o comércio internacional.

Muitas empresas importam indiretamente sem perceber

Uma empresa não precisa possuir registro como importadora para estar exposta a custos internacionais. A dependência pode estar escondida dentro da cadeia de fornecedores.

  • componentes importados;
  • máquinas estrangeiras;
  • matérias-primas cotadas internacionalmente;
  • softwares ou serviços internacionais;
  • tecnologia contratada em moeda estrangeira;
  • combustíveis ou insumos influenciados pelo mercado externo.

O comprador pode receber uma nota fiscal em reais e pagar uma empresa brasileira. Mesmo assim, parte daquele custo pode depender do comportamento do dólar.

Como descobrir a exposição internacional da empresa

Um exercício importante para planejamento é mapear quanto da estrutura financeira depende direta ou indiretamente do exterior.

  • Exposição direta: a própria empresa importa ou exporta.
  • Exposição indireta: fornecedores dependem de produtos ou insumos importados.
  • Exposição comercial: concorrentes nacionais ou estrangeiros vendem produtos importados.
  • Exposição financeira: contratos, dívidas ou serviços estão vinculados a moedas estrangeiras.
  • Exposição de preços: determinados insumos acompanham referências internacionais mesmo quando adquiridos no Brasil.

Esse levantamento ajuda a empresa a entender quais variáveis externas podem afetar sua margem antes que a mudança apareça em um reajuste do fornecedor.

Mais importante que prever o dólar é testar cenários

Saber que a empresa possui exposição cambial não significa que o empresário precise descobrir exatamente quanto valerá o dólar no futuro.

Para planejamento empresarial, frequentemente é mais útil trabalhar com cenários. A empresa pode calcular seu custo e sua margem com câmbio semelhante ao orçamento, com moeda estrangeira mais cara e com moeda estrangeira mais barata.

Se uma pequena variação cambial elimina grande parte da margem, existe uma vulnerabilidade que precisa ser conhecida.

Importador precisa calcular muito mais que o preço do fornecedor

O preço de aquisição estrangeiro é apenas uma parte da conta. Dependendo da operação, o custo final pode envolver conversão cambial, frete internacional, seguro, tributos, despesas aduaneiras, armazenagem, serviços logísticos, custos bancários, prazo de transporte e necessidade adicional de capital de giro.

Existe ainda o fator tempo. O recurso financeiro pode ficar comprometido durante semanas ou meses antes que a mercadoria esteja disponível para venda ou utilização.

Por isso, a comparação correta não é apenas entre dois preços de compra. É entre os custos efetivos das alternativas disponíveis.

Prazo de importação também é custo

Mesmo que um produto importado seja mais barato, a empresa pode precisar comprar volumes maiores, manter estoque por mais tempo e financiar esse período. O resultado pode ser uma necessidade maior de capital de giro.

Quanto mais caros estiverem os juros, maior pode ser o impacto financeiro de manter recursos parados em estoques por períodos prolongados. Assim, preço, câmbio, logística e financiamento precisam ser analisados conjuntamente.

Exportador também precisa conhecer sua exposição líquida

Uma valorização da moeda estrangeira pode aumentar a quantidade de reais recebida pela mesma receita em dólar. Mas o benefício não pode ser analisado isoladamente.

O exportador pode utilizar componentes importados, equipamentos estrangeiros, fretes internacionais, serviços contratados no exterior ou dívidas em moeda estrangeira.

Parte da melhora cambial da receita pode ser compensada por custos também vinculados ao exterior. Por isso, o indicador relevante é a exposição líquida.

Pequenas e médias empresas também estão expostas

Comércio exterior costuma ser associado a grandes indústrias, exportadores e multinacionais, mas uma pequena empresa de tecnologia pode pagar software em dólar, um restaurante pode utilizar equipamentos importados e uma clínica pode adquirir produtos com componentes estrangeiros.

Porte empresarial não elimina exposição. Apenas pode torná-la menos visível.

O impacto pode chegar aos preços cobrados dos clientes

Quando custos internacionais aumentam, as empresas precisam decidir quanto desse movimento conseguem absorver e quanto precisam transferir ao preço final.

Repassar integralmente um aumento pode proteger o resultado unitário, mas reduzir vendas. Absorver totalmente o custo pode preservar preços, mas deteriorar a margem.

O equilíbrio depende da demanda, da concorrência, dos contratos existentes e da capacidade financeira do negócio.

Comércio exterior também pode revelar oportunidades

O aumento das exportações brasileiras não deve ser observado apenas pela ótica dos riscos. Para algumas empresas, o mercado internacional pode representar diversificação de receita e integração a cadeias de fornecedores de exportadores.

Mas entrar no comércio exterior exige planejamento comercial, financeiro, cambial, logístico, tributário, contratual e operacional.

Superávit maior não significa automaticamente economia melhor

O saldo da balança comercial é um indicador importante, mas precisa ser interpretado com cuidado. Um superávit pode aumentar porque as exportações cresceram, porque as importações caíram, por alteração de preços internacionais ou por mudanças nas quantidades negociadas.

No começo de agosto de 2026, um aspecto particularmente relevante é que exportações e importações cresceram simultaneamente.

Os primeiros nove dias não definem o resultado do mês

Os números divulgados pelo MDIC são preliminares e correspondem ao período entre 1º e 9 de agosto. Não representam o resultado definitivo do mês.

Embarques, importações, preços internacionais e calendário comercial podem alterar significativamente os números nas semanas seguintes. Para empresas, a informação deve ser utilizada como sinal econômico, e não como confirmação antecipada do desempenho de todo o mês.

Na avaliação dos autores

Na avaliação de Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, o avanço simultâneo de exportações e importações reforça a necessidade de empresas identificarem quanto das próprias receitas, custos e margens está direta ou indiretamente ligado ao mercado internacional.

Perguntas frequentes

Quanto o Brasil exportou no início de agosto de 2026?

As exportações brasileiras somaram US$ 9,30 bilhões entre 1º e 9 de agosto de 2026, segundo dados preliminares do MDIC. Pela média diária, o valor representou crescimento de 32,2% na comparação com agosto de 2025.

Quanto o Brasil importou no mesmo período?

As importações somaram US$ 6,78 bilhões entre 1º e 9 de agosto. Pela média diária, houve crescimento de 20,7% em relação a agosto de 2025.

Uma empresa que não importa pode ser afetada pelo dólar?

Sim. Fornecedores brasileiros podem utilizar matérias-primas, componentes, equipamentos, softwares ou serviços estrangeiros. Uma variação cambial pode aumentar esses custos e chegar posteriormente ao preço pago pela empresa.

Por que uma alta do dólar pode reduzir a margem?

Se uma empresa possui custos relacionados ao dólar, mas vende em reais, a valorização da moeda estrangeira pode elevar despesas antes que seja possível reajustar preços. Se o aumento não for repassado, parte da margem pode ser reduzida.

Importações maiores são necessariamente ruins para a economia?

Não. Importações incluem produtos finais, máquinas, equipamentos, componentes e matérias-primas. O significado econômico depende da composição das compras, de sua finalidade e do comportamento da atividade doméstica.

Como uma empresa pode avaliar sua exposição cambial?

O primeiro passo é identificar receitas, custos, fornecedores, contratos e concorrentes influenciados por moedas ou preços internacionais. Depois, a empresa pode simular cenários cambiais e medir os impactos sobre custos, preços, caixa e margem.

Fontes consultadas

Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) - Balança comercial da 1ª semana de agosto de 2026.
A divulgação oficial do MDIC apresenta os dados de exportações, importações e saldo comercial utilizados nesta análise.

MDIC - Dados preliminares da Balança Comercial.
A base de dados preliminares reúne as atualizações parciais do comércio exterior brasileiro.

Secretaria de Comércio Exterior - Cronograma de divulgações.
O cronograma oficial informa as datas previstas para as divulgações da balança comercial.

Secretaria de Comércio Exterior - Comex Stat.
O Comex Stat é a base oficial utilizada para consulta das estatísticas brasileiras de comércio exterior.