Deepfake na empresa: como evitar fraudes com voz e vídeo falsificados
Criminosos podem simular sócios, diretores e fornecedores para solicitar pagamentos ou informações; proteção depende menos de reconhecer a falsificação e mais de criar processos seguros de confirmação
Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade
Uma mensagem de áudio com a voz do sócio, uma ligação do suposto diretor ou até uma videoconferência aparentemente legítima já não são suficientes para confirmar a identidade de quem solicita um pagamento.
Com ferramentas de inteligência artificial capazes de reproduzir vozes, rostos, expressões e movimentos, empresas precisam rever procedimentos baseados apenas no reconhecimento visual ou auditivo de uma pessoa.
Essa manipulação é conhecida como deepfake: conteúdo sintético ou alterado com inteligência artificial para fazer parecer que alguém disse ou fez algo que, na realidade, não aconteceu.
O Radar Tecnológico sobre Deepfakes, publicado pela Agência Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, identifica riscos relacionados à clonagem de voz, às falsas validações de identidade, às chamadas de vídeo sintéticas e às fraudes financeiras corporativas. O estudo menciona situações em que criminosos simulam executivos para solicitar transferências bancárias a trabalhadores ou parceiros comerciais.
O problema, portanto, não deve ser tratado apenas como uma ameaça à imagem ou à reputação. Ele já faz parte dos riscos financeiros, operacionais e de segurança da informação enfrentados pelas organizações.
Como o deepfake pode ser usado contra uma empresa
Os golpes normalmente combinam tecnologia com engenharia social - técnica de manipulação utilizada para induzir uma pessoa a executar determinada ação.
O fraudador não precisa necessariamente invadir o sistema financeiro da empresa. Em muitos casos, ele tenta convencer um trabalhador autorizado a realizar o pagamento.
A abordagem pode simular:
- um sócio solicitando uma transferência urgente;
- um diretor pedindo o pagamento sigiloso de uma operação;
- um fornecedor comunicando alteração dos dados bancários;
- um cliente solicitando o envio de documentos;
- um gestor pedindo senha, código de autenticação ou liberação de acesso;
- um executivo participando de uma chamada de vídeo;
- um responsável autorizando uma operação fora da rotina.
A falsificação pode utilizar informações disponíveis publicamente, como vídeos institucionais, entrevistas, apresentações, redes sociais, nomes de trabalhadores e dados sobre a estrutura da empresa.
O conteúdo manipulado não precisa ser perfeito. Basta que pareça convincente no contexto de urgência criado pelo criminoso.
A clonagem de voz é um risco especialmente relevante
A clonagem de voz utiliza inteligência artificial para reproduzir características como tom, ritmo, vocabulário e estilo de fala de uma pessoa.
O material produzido pode ser usado para criar frases que nunca foram pronunciadas pelo titular da voz. Segundo a ANPD, esse tipo de deepfake pode combinar a reprodução do tom com a síntese de texto, aumentando a credibilidade da simulação.
Isso muda uma prática ainda comum nas empresas: considerar uma mensagem de áudio como confirmação suficiente porque a voz parece ser de uma pessoa conhecida.
Áudios recebidos por aplicativos de mensagens, chamadas telefônicas e reuniões virtuais devem ser tratados como meios de comunicação, não como mecanismos definitivos de autenticação.
O mesmo cuidado vale para vídeos. A presença de rosto, voz e movimentos aparentemente naturais não elimina a necessidade de validação adicional quando a conversa envolve dinheiro, documentos confidenciais, credenciais ou alterações cadastrais.
O maior erro é depender da capacidade de reconhecer a falsificação
Alguns deepfakes ainda apresentam falhas perceptíveis, como movimentos pouco naturais, alteração da sincronia entre voz e imagem ou inconsistências na iluminação.
No entanto, orientar a equipe a procurar apenas esses sinais não é suficiente.
A tecnologia de geração evolui continuamente, assim como os mecanismos de detecção. A própria ANPD observa que ainda não existe um sistema infalível para identificar conteúdos manipulados e recomenda a combinação de ferramentas automatizadas com avaliação humana.
Na prática, a empresa não deve estruturar sua segurança com base na expectativa de que algum trabalhador perceberá que a voz ou o vídeo são falsos.
O processo precisa continuar seguro mesmo quando o deepfake parecer autêntico.
Voz, rosto e número de telefone não bastam para confirmar identidade
A voz pode ser clonada. O rosto pode ser manipulado. A conta de e-mail pode ser comprometida. O número de telefone exibido na tela também não garante que a comunicação tenha partido da pessoa esperada.
Por isso, toda operação sensível deve passar por mecanismos independentes de validação.
Segundo Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, o avanço dos deepfakes exige uma mudança nos controles internos das empresas.
“A principal proteção não está em tentar descobrir se todo áudio ou vídeo é falso. Está em impedir que uma única mensagem, ligação ou videoconferência seja suficiente para autorizar um pagamento ou liberar uma informação sensível.”
A empresa precisa definir previamente:
- quais operações exigem validação adicional;
- quem pode autorizar cada tipo de transação;
- quais canais devem ser utilizados;
- quais valores dependem de dupla aprovação;
- como serão confirmadas alterações bancárias;
- como agir diante de uma solicitação fora da rotina;
- quem deve ser comunicado em caso de suspeita.
Essas regras precisam valer também para sócios e diretores. Um procedimento pode perder sua eficácia quando a própria liderança costuma pedir exceções.
Como criar um processo seguro de confirmação
Use um canal independente
A confirmação deve ocorrer por um canal diferente daquele utilizado para fazer a solicitação.
Quando o pedido chegar por mensagem, a empresa pode confirmar por ligação para um número previamente cadastrado. Se chegar por ligação, pode exigir uma aprovação registrada no sistema corporativo.
Não se deve usar como referência o telefone, o e-mail ou o link informado na própria comunicação suspeita.
Exija dupla aprovação para operações críticas
Pagamentos acima de determinados valores, transferências fora do padrão e mudanças de dados bancários podem depender da conferência de duas pessoas.
A segregação de funções reduz a possibilidade de uma única abordagem resultar em prejuízo.
O responsável por cadastrar ou alterar os dados de pagamento, por exemplo, não deveria ser a única pessoa a aprovar a transferência.
Crie limites por tipo de operação
O nível de controle deve ser proporcional ao risco.
Uma despesa recorrente, prevista em contrato e destinada a uma conta já validada apresenta risco diferente de uma transferência urgente para um novo favorecido.
A empresa pode estabelecer critérios diferenciados para:
- novos beneficiários;
- pagamentos antecipados;
- operações fora do horário habitual;
- valores acima da média;
- alteração de contas bancárias;
- solicitações feitas durante viagens;
- pagamentos classificados como confidenciais;
- transferências internacionais;
- movimentações sem documentação de suporte.
Formalize as exceções
Solicitações urgentes não devem eliminar os controles. Elas precisam seguir um procedimento específico.
A empresa pode determinar que toda exceção seja registrada, justificada e posteriormente revisada.
Quando a urgência se torna motivo para ignorar o processo, ela passa a ser uma vulnerabilidade conhecida por quem pretende aplicar o golpe.
Alteração bancária de fornecedor exige cuidado reforçado
A troca dos dados bancários de fornecedores é um dos pontos mais sensíveis do processo de pagamentos.
Um e-mail aparentemente legítimo pode informar que a empresa fornecedora mudou de banco ou passou a utilizar uma nova conta. Caso a alteração seja aceita sem validação independente, pagamentos verdadeiros podem ser enviados ao fraudador.
Antes de modificar o cadastro, a empresa deve:
- entrar em contato com uma pessoa conhecida do fornecedor;
- utilizar telefone ou e-mail já registrado;
- confirmar a alteração por canal independente;
- verificar os dados cadastrais do beneficiário;
- registrar quem solicitou e quem aprovou a mudança;
- impedir que uma única pessoa altere o cadastro e libere o pagamento;
- redobrar a conferência na primeira transferência para a nova conta.
O retorno à própria mensagem recebida não representa confirmação independente.
Urgência, autoridade e sigilo são sinais de alerta
Mesmo com tecnologia sofisticada, os golpes continuam explorando comportamentos humanos.
As mensagens costumam pressionar o destinatário com frases como:
- “faça o pagamento imediatamente”;
- “estou em reunião e não posso conversar”;
- “não envolva outras pessoas”;
- “depois eu envio a documentação”;
- “é uma operação confidencial”;
- “preciso que ignore o procedimento desta vez”;
- “o banco fecha em poucos minutos”.
A urgência reduz o tempo de análise. A autoridade aparente dificulta o questionamento. O sigilo impede que outra pessoa participe da conferência.
Por isso, a política interna deve assegurar que nenhum trabalhador será punido por interromper uma operação para cumprir o procedimento de validação.
Questionar uma solicitação atípica não é desrespeitar a hierarquia. É proteger a empresa.
Quais áreas precisam participar
A prevenção de fraudes com deepfakes não é responsabilidade exclusiva da tecnologia da informação.
Financeiro
Deve mapear pagamentos, limites, aprovações e operações fora do padrão.
Compras e contas a pagar
Precisam validar fornecedores, alterações bancárias e documentos de suporte.
Tecnologia da informação
Deve controlar acessos, autenticações, registros, dispositivos e resposta a incidentes.
Departamento pessoal
Precisa proteger dados de trabalhadores e ficar atento a pedidos falsos de documentos, alterações cadastrais ou movimentações relacionadas à folha.
Contabilidade
Pode identificar lançamentos incompatíveis com a operação, documentos insuficientes e movimentações que destoem do histórico.
Direção
Deve apoiar os controles e evitar criar exceções informais que enfraqueçam o processo.
O combate à fraude depende da integração dessas áreas. Um sistema protegido não resolve sozinho o problema quando o procedimento de autorização é frágil.
A conciliação ajuda, mas não substitui a prevenção
A conciliação bancária e contábil permite comparar as movimentações financeiras com documentos, registros e fatos econômicos.
Esse controle pode ajudar a identificar:
- pagamentos não reconhecidos;
- duplicidades;
- valores divergentes;
- transferências sem documentação;
- beneficiários desconhecidos;
- movimentações fora do padrão.
Entretanto, a conciliação normalmente identifica o problema depois da saída do dinheiro.
Ela é uma camada importante de controle, mas não substitui a validação anterior ao pagamento.
Quanto menor o intervalo entre a movimentação e a conciliação, maior a possibilidade de reação. Empresas que deixam essa análise apenas para o fim do mês podem descobrir uma irregularidade tarde demais.
Deepfakes também envolvem proteção de dados
A produção e a circulação de deepfakes podem envolver tratamento de dados pessoais, especialmente quando utilizam informações que permitem identificar uma pessoa.
A LGPD define como dado pessoal qualquer informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável. A lei também classifica como sensível o dado biométrico quando vinculado a uma pessoa natural. (Presidência da República)
Isso não significa que toda fotografia ou gravação de voz seja automaticamente um dado biométrico sensível. Essa classificação depende do contexto e da forma de tratamento, especialmente quando a informação é utilizada para identificação ou autenticação biométrica.
A ANPD aponta que a manipulação de rostos e vozes pode envolver dados pessoais sensíveis e que os riscos aparecem em diferentes etapas: treinamento dos modelos, geração ou manipulação do conteúdo e sua disseminação.
Quando a própria empresa utiliza ferramentas de geração ou edição de voz e imagem, precisa avaliar:
- finalidade do tratamento;
- hipótese legal aplicável;
- necessidade dos dados utilizados;
- transparência com os titulares;
- acesso aos arquivos;
- período de armazenamento;
- compartilhamento com fornecedores;
- eventual transferência internacional;
- utilização dos dados para treinamento da ferramenta;
- procedimento de exclusão;
- medidas de segurança;
- responsabilidades contratuais.
O consentimento não é a única hipótese legal prevista na LGPD. A base adequada depende da finalidade e das características de cada operação.
O que verificar antes de contratar uma ferramenta de IA
Ferramentas capazes de gerar, editar, traduzir ou reproduzir voz e imagem podem ter aplicações legítimas em publicidade, treinamento, acessibilidade e produção de conteúdo.
Antes da contratação, a empresa deve verificar:
- onde os dados serão processados;
- se os arquivos serão armazenados;
- se o fornecedor poderá reutilizá-los;
- se o conteúdo servirá para treinamento de modelos;
- como solicitar a exclusão;
- quais medidas de segurança são adotadas;
- como são tratados incidentes;
- se existem subcontratados;
- em quais países os dados poderão ser processados;
- como as responsabilidades estão distribuídas no contrato.
Também deve haver uma política interna sobre quais conteúdos podem ser enviados para a plataforma.
Não devem ser inseridos em ferramentas não autorizadas:
- senhas;
- certificados digitais;
- dados bancários;
- folhas de pagamento;
- documentos pessoais;
- declarações fiscais;
- contratos confidenciais;
- informações de clientes;
- dados de saúde;
- segredos comerciais;
- credenciais de acesso.
Como proteger a imagem e a voz dos dirigentes
A presença digital de sócios e executivos pode ser importante para a comunicação da empresa, mas aumenta a quantidade de materiais públicos que podem ser utilizados em falsificações.
A solução não é necessariamente retirar essas pessoas das redes sociais. O mais importante é reduzir a exposição desnecessária e preparar a organização para possíveis abusos.
Algumas medidas práticas incluem:
- evitar divulgar rotinas internas de autorização;
- não mostrar senhas, documentos ou telas de sistemas;
- revisar vídeos antes da publicação;
- definir canais oficiais de comunicação;
- orientar trabalhadores sobre solicitações feitas em nome dos dirigentes;
- monitorar perfis falsos;
- documentar tentativas de falsificação;
- manter um procedimento de resposta a incidentes;
- comunicar rapidamente clientes e fornecedores quando houver risco de fraude.
A conscientização sobre deepfakes pode reduzir a vulnerabilidade a golpes e estimular a adoção de métodos complementares de autenticação, conforme destaca a ANPD.
O que fazer diante de uma solicitação suspeita
Ao receber uma ligação, áudio, vídeo ou mensagem fora do padrão, a empresa deve:
- interromper temporariamente a operação;
- não responder com dados ou credenciais;
- confirmar a solicitação por canal independente;
- preservar mensagens, arquivos e registros;
- comunicar o responsável financeiro e a área de tecnologia;
- verificar se contas ou acessos foram comprometidos;
- revisar operações recentes relacionadas;
- alertar outras pessoas que possam receber a mesma abordagem;
- avaliar medidas bancárias, jurídicas e de proteção de dados;
- registrar o incidente e revisar o procedimento que foi explorado.
Quando já houver transferência, o contato com a instituição financeira deve ser imediato.
Se o episódio envolver dados pessoais, a empresa também deverá avaliar a existência de incidente de segurança, seus riscos aos titulares e as obrigações aplicáveis ao caso concreto.
Perguntas frequentes
O que é deepfake?
Deepfake é um áudio, imagem ou vídeo produzido ou manipulado com inteligência artificial para simular uma pessoa, sua aparência, sua voz ou suas ações. A tecnologia pode ter usos legítimos, mas também pode ser empregada em fraudes, falsificação de identidade, desinformação e ataques de engenharia social.
É possível clonar a voz de um sócio ou diretor?
Sim. Sistemas de inteligência artificial podem reproduzir características como tom, ritmo e estilo de fala. Por isso, um áudio com voz aparentemente conhecida não deve ser considerado confirmação suficiente para pagamentos, compartilhamento de dados ou liberação de acessos.
Uma videochamada comprova a identidade de quem participa?
Não necessariamente. Voz, rosto e movimentos podem ser manipulados. Quando a conversa envolver uma operação sensível, a identidade deve ser confirmada por outro canal ou por um procedimento corporativo previamente definido.
Como confirmar uma solicitação de pagamento?
A empresa deve utilizar um canal independente e previamente cadastrado. Também pode exigir dupla aprovação, conferência documental, validação do beneficiário e registro no sistema. O telefone ou e-mail informado na própria mensagem suspeita não deve ser usado como única referência.
Ferramentas conseguem detectar todos os deepfakes?
Não. Sistemas de detecção podem auxiliar, mas ainda apresentam limitações. A ANPD afirma que não existe método infalível e destaca a importância de combinar tecnologia, avaliação humana, conscientização e autenticação complementar.
Foto e voz são dados pessoais sensíveis?
Foto e voz podem ser dados pessoais quando permitem identificar alguém. Serão dados biométricos sensíveis quando tratados tecnicamente com finalidade de identificação ou autenticação vinculada a uma pessoa natural. A classificação depende da finalidade e do contexto do tratamento.
Quem deve aprovar uma alteração bancária de fornecedor?
A empresa deve definir responsáveis e aplicar segregação de funções. O ideal é que a pessoa que altera o cadastro não seja a única responsável pela aprovação do pagamento. A mudança também deve ser confirmada com contato conhecido do fornecedor, por canal independente.
Fontes consultadas
Agência Nacional de Proteção de Dados - ANPD
Radar Tecnológico sobre Deepfakes. Estudo sobre conceitos, funcionamento, usos, riscos, proteção de dados, fraudes financeiras, engenharia social, detecção e medidas de enfrentamento.
Presidência da República
Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018 - Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.