Nova Seção 12 da terceira edição da IFRS para PMEs concentra os critérios de mensuração a valor justo e reforça que estimativas precisam estar sustentadas por mercado, metodologia e evidências verificáveis.
Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade
Uma empresa possui determinado ativo registrado por R$ 500 mil.
O sócio acredita que poderia vendê-lo por R$ 800 mil. Um interessado oferece R$ 650 mil. Um ativo semelhante foi negociado recentemente por R$ 720 mil. Um avaliador utiliza premissas técnicas e chega a R$ 690 mil.
Qual desses números representa o valor justo?
A resposta não pode ser simplesmente aquele que parece mais favorável à empresa.
Valor justo não é o preço que o empresário gostaria de receber, não é necessariamente o custo pago no passado e também não corresponde automaticamente ao primeiro preço encontrado no mercado.
É uma base de mensuração contábil que precisa seguir critérios próprios.
A terceira edição da IFRS para PMEs criou uma Seção 12 específica para mensuração a valor justo, reunindo em um único bloco requisitos que antes apareciam distribuídos em diferentes partes da norma internacional.
Para empresários e gestores, a questão prática é direta:
Quando um valor relevante aparece nas demonstrações, a empresa consegue explicar de onde ele veio?
Custo histórico e valor justo respondem perguntas diferentes
Imagine um equipamento adquirido cinco anos atrás por R$ 400 mil.
O custo histórico responde: Quanto a empresa desembolsou na aquisição?
O valor justo procura responder outra pergunta: Qual seria a mensuração do ativo nas condições de mercado existentes na data considerada, observados os critérios aplicáveis?
Esses números podem coincidir. Mas não precisam.
Um ativo comprado por R$ 400 mil pode posteriormente ter informações de mercado indicando valor superior ou inferior.
Isso não significa que a empresa esteja autorizada a substituir livremente o valor contábil pelo novo número. Primeiro é necessário verificar qual base de mensuração a norma aplicável exige ou permite para aquele item.
Valor justo não é uma ferramenta para aumentar o patrimônio
Esse é um dos principais cuidados.
O empresário pode observar determinado ativo contabilizado por R$ 500 mil e acreditar que ele vale R$ 1 milhão.
A conclusão intuitiva seria: “Se vale mais, podemos atualizar o balanço.”
Não necessariamente.
A contabilidade não deve escolher a base de mensuração em função do resultado que a administração gostaria de demonstrar.
É necessário identificar qual norma se aplica, qual tratamento é exigido, quais opções eventualmente existem e quais condições precisam ser atendidas.
O preço desejado pelo proprietário também não determina o valor
Considere um imóvel ou equipamento sobre o qual o proprietário afirma: “Por menos de R$ 1 milhão eu não vendo.”
Esse valor revela uma decisão pessoal. Não comprova, sozinho, que R$ 1 milhão corresponda a uma mensuração baseada em condições de mercado.
O número não deveria depender exclusivamente da expectativa do sócio, de necessidade financeira, da meta de lucro, de apego ao ativo ou de uma negociação excepcional.
Quanto maior a subjetividade, maior deve ser a qualidade das evidências.
Mercado ativo reduz parte da incerteza
Imagine um ativo com preço observado regularmente em mercado organizado. Na data da mensuração existe informação disponível sobre transações.
Nesse cenário, a dependência de estimativas internas tende a ser menor.
Agora considere uma máquina produzida sob encomenda, usada em atividade muito específica e raramente comercializada. Não existe cotação pública, poucos equipamentos semelhantes são vendidos e cada unidade possui características próprias.
A mensuração passa a depender de mais julgamento.
Situação — Informação predominante — Julgamento
Preço diretamente observável — Mercado ativo — Menor
Ativos semelhantes negociados — Dados comparáveis — Intermediário
Pouca evidência de mercado — Modelos e premissas — Maior
Quanto menos informação diretamente observável existir, maior deve ser a preocupação com metodologia, documentação e consistência.
Três anúncios não são necessariamente três referências válidas
Imagine que uma busca encontre máquinas semelhantes anunciadas por R$ 450 mil, R$ 600 mil e R$ 800 mil.
Calcular uma média simples de R$ 616,7 mil não transforma automaticamente esse valor em mensuração adequada.
As máquinas podem ter idades, capacidades, estados de conservação, acessórios, localizações e condições comerciais diferentes. Além disso, preço anunciado não é necessariamente preço negociado.
O dado de mercado precisa ser analisado antes de entrar no cálculo.
Laudo de avaliação também precisa ser entendido
A existência de um laudo não encerra a discussão. A empresa deveria conseguir responder:
• quando ele foi produzido;
• qual ativo foi avaliado;
• qual metodologia foi utilizada;
• quais premissas foram adotadas;
• quais dados de mercado serviram de referência;
• para qual finalidade a avaliação foi preparada.
Um documento pode ser tecnicamente adequado para determinada finalidade e não necessariamente ser suficiente para outra. Essa preocupação se conecta diretamente aos controles internos e à rastreabilidade das informações do fechamento.
Três abordagens ajudam a compreender como uma avaliação pode ser construída
Abordagem de mercado
Utiliza preços e informações derivados de transações envolvendo itens idênticos ou comparáveis. É especialmente útil quando existem referências confiáveis disponíveis.
Abordagem de custo
Considera, em termos gerais, o custo necessário para substituir a capacidade de serviço de determinado ativo, respeitados os critérios da avaliação.
Abordagem de renda
Transforma valores futuros em uma estimativa presente. É nessa abordagem que aparecem modelos como fluxo de caixa descontado.
A escolha não deve ser orientada pelo maior resultado. A técnica deve ser adequada ao ativo, às circunstâncias e à disponibilidade de informações.
Fluxo de caixa descontado mostra como uma premissa muda o resultado
Considere um exemplo exclusivamente didático. Um ativo deverá gerar R$ 100 mil no Ano 1, R$ 100 mil no Ano 2 e R$ 100 mil no Ano 3.
VP = FC ÷ (1 + i)ⁿ
• VP = valor presente
• FC = fluxo de caixa futuro
• i = taxa de desconto
• n = período
Adotando hipoteticamente uma taxa de 10%:
Ano 1: R$ 100.000 ÷ 1,10 = R$ 90.909
Ano 2: R$ 100.000 ÷ 1,10² = R$ 82.645
Ano 3: R$ 100.000 ÷ 1,10³ = R$ 75.131
Valor presente aproximado: R$ 248.685
O exemplo não determina o valor justo de nenhum ativo real. Ele mostra que o resultado depende das informações inseridas no modelo. Se o fluxo projetado mudar, o valor muda. Se a taxa mudar, o valor também muda.
A fórmula pode estar correta e a premissa errada
Esse é um dos principais riscos das avaliações.
Imagine uma planilha utilizando crescimento de 15% ao ano. A fórmula funciona perfeitamente.
Mas a pergunta mais importante é: por que 15%?
Existe histórico que sustente essa projeção? O setor cresce nessa velocidade? Existem contratos que sustentam o aumento? A capacidade operacional comporta a expansão?
Uma planilha sofisticada não corrige premissas frágeis. Ela apenas calcula essas premissas com precisão.
Sensibilidade ajuda a revelar o tamanho da incerteza
Imagine que um valuation ou mensuração dependa fortemente de uma taxa. Com uma hipótese, o modelo produz R$ 5 milhões. Mudando uma premissa relevante, o resultado passa para R$ 4 milhões.
A diferença de R$ 1 milhão mostra que o valor não deveria ser interpretado como certeza absoluta.
Quanto maior a sensibilidade da estimativa, maior a importância de compreender quais variáveis realmente dirigem o resultado.
Valor justo e valuation não são sinônimos
O valuation possui objetivo mais amplo de avaliação econômica de um negócio, investimento ou ativo para determinadas finalidades.
• venda de empresas;
• entrada de investidores;
• negociação entre sócios;
• análise de investimentos;
• planejamento.
Valor justo é uma base específica de mensuração utilizada dentro do contexto das normas contábeis. Algumas técnicas aparecem nos dois ambientes. Isso não torna os conceitos iguais. A finalidade e os requisitos precisam ser observados separadamente.
Nem todo preço negociado representa necessariamente a melhor referência
Imagine uma empresa em dificuldade financeira que precisa vender um ativo imediatamente.
Ela aceita R$ 400 mil. Ativos semelhantes, em transações normais, são negociados próximos de R$ 650 mil.
É correto utilizar automaticamente os R$ 400 mil como referência definitiva? Não necessariamente.
As circunstâncias da transação importam. Preço é uma evidência. O contexto determina a qualidade dessa evidência.
Quanto maior o julgamento, maior deve ser a governança
Mensurações relevantes precisam deixar uma trilha.
A documentação pode incluir metodologia, fonte dos dados, premissas, cálculos, data da avaliação, responsável, revisão, aprovação e mudanças em relação ao período anterior.
Isso não serve apenas para auditoria. Serve para que a própria administração consiga compreender os números que utiliza.
Uma estimativa não se transforma em certeza porque possui duas casas decimais
Imagine um relatório que apresente R$ 3.746.821.
A precisão visual transmite segurança, mas o número pode depender de projeção de vendas, margem futura, taxa de desconto, horizonte temporal e premissas econômicas.
Talvez uma pequena mudança nessas variáveis altere o valor em centenas de milhares de reais.
A administração precisa compreender a diferença entre precisão matemática e certeza econômica.
Estimativa inadequada pode afetar muito mais do que o ativo
Considere um exemplo simplificado: valor apresentado de R$ 800 mil e valor tecnicamente suportado de R$ 600 mil.
A diferença é de R$ 200 mil.
Dependendo da natureza do item e do tratamento contábil aplicável, uma diferença como essa pode repercutir sobre patrimônio, resultado, rentabilidade, endividamento, covenants, crédito e avaliação econômica.
Por isso, a qualidade da mensuração interfere na qualidade da decisão.
Bancos e investidores podem perguntar como o valor foi construído
Duas empresas podem apresentar exatamente R$ 10 milhões em ativos.
Na primeira, quase todos os valores estão ligados a informações diretamente observáveis.
Na segunda, parcela relevante depende de modelos e premissas internas.
Os R$ 10 milhões são iguais. O nível de incerteza, não necessariamente.
Usuários das demonstrações podem precisar compreender metodologia, premissas, sensibilidade, fontes e grau de julgamento.
O fechamento deveria mapear os saldos sujeitos a julgamento
Uma rotina simples pode manter um controle como:
Item — Responsável — Evidência
Investimento — Financeiro — Dados de mercado
Ativo específico — Especialista — Laudo
Fluxo projetado — Administração — Orçamento aprovado
Taxa aplicada — Financeiro/especialista — Memória técnica
Isso reduz o risco de descobrir meses depois que ninguém consegue explicar a origem de determinado valor.
Esse nível de organização também melhora a qualidade da assessoria contábil e das informações utilizadas pelos gestores, especialmente quando demonstrações são usadas em decisões de crédito, investimento ou negociação.
A memória do cálculo não pode depender de uma única pessoa
Uma boa pergunta de governança é: “Se a pessoa responsável pela mensuração deixar a empresa amanhã, outra conseguirá reconstruir o cálculo?”
Se não for possível, existe dependência individual.
A documentação precisa permitir compreender o raciocínio, os dados, as premissas, as versões, as aprovações e as alterações efetuadas.
Na avaliação de Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, quanto maior o julgamento necessário para chegar a um valor, maior precisa ser a preocupação com evidências e capacidade de explicar sua origem.
Uma estimativa complexa não deveria chegar ao balanço como se fosse um número absoluto quando sua construção depende de premissas que podem mudar.
A nova Seção 12 possui tratamento próprio de transição
A terceira edição da IFRS para PMEs concentra na Seção 12 os critérios relacionados à mensuração do valor justo.
A norma internacional também possui disposições específicas de transição para essa nova seção.
Isso significa que a mudança não deve ser interpretada como autorização genérica para revisar indiscriminadamente saldos históricos ou substituir valores registrados.
Quando aplicável, a transição precisa seguir os requisitos previstos.
A vigência de 2027 é internacional, não uma obrigação automática brasileira
A terceira edição possui vigência internacional para períodos anuais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027, com adoção antecipada permitida nos termos da norma internacional.
No Brasil, entretanto, as empresas precisam acompanhar a incorporação correspondente às Normas Brasileiras de Contabilidade e seu enquadramento.
Estudar a mudança agora significa preparação. Não significa afirmar que toda empresa brasileira deverá automaticamente aplicar a nova Seção 12 a partir dessa data.
Oito perguntas ajudam a testar uma mensuração
Qual norma determina ou permite essa mensuração?
Qual é a data da avaliação?
Existe informação de mercado diretamente observável?
Quais dados foram utilizados?
Qual metodologia foi escolhida?
Quais premissas mais influenciam o resultado?
Existe memória de cálculo?
Outra pessoa consegue reproduzir a análise?
Essas perguntas não exigem que o empresário domine IFRS. Exigem apenas que os números relevantes do balanço consigam ser explicados.
Melhorar mensurações melhora também a gestão
O benefício não se restringe ao atendimento de uma norma.
Processos de avaliação mais estruturados ajudam em investimentos, negociação de ativos, entrada de investidores, crédito, valuation, planejamento patrimonial e governança.
Uma informação melhor reduz o risco de decisões importantes serem tomadas a partir de números difíceis de sustentar.
FAQ
O que é valor justo na IFRS para PMEs?
É uma base de mensuração contábil determinada conforme critérios específicos e condições de mercado. Não corresponde simplesmente ao preço desejado pelo proprietário nem ao custo histórico do item.
Todo ativo deve ser mensurado a valor justo?
Não. A mensuração é utilizada quando a norma aplicável exige ou permite essa base. A existência da Seção 12 não transforma valor justo em regra geral para todos os ativos e passivos.
Como calcular valor justo quando não existe preço direto de mercado?
Podem ser utilizadas técnicas de avaliação adequadas às circunstâncias, baseadas em informações de mercado, custo ou renda. Quanto maior a dependência de modelos, maior deve ser a qualidade das premissas e da documentação.
Valor justo e valuation são a mesma coisa?
Não. Valor justo é uma base contábil de mensuração. Valuation é um processo mais amplo de avaliação econômica para diferentes finalidades, embora algumas técnicas possam ser utilizadas em ambos.
Um laudo é suficiente para sustentar um valor?
Não necessariamente. É preciso analisar metodologia, premissas, data, dados utilizados e adequação da avaliação à finalidade contábil.
A nova Seção 12 já é obrigatória para todas as empresas brasileiras?
Não. A terceira edição possui vigência internacional a partir dos períodos iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027. No Brasil, cada entidade precisa observar as Normas Brasileiras de Contabilidade e seu enquadramento.
Fontes consultadas
IFRS Foundation - IFRS for SMEs Accounting Standard
https://www.ifrs.org/issued-standards/ifrs-for-smes/
Conferência em 18/08/2026.
IFRS Foundation - Educational Module 12: Fair Value Measurement
https://www.ifrs.org/content/dam/ifrs/supporting-implementation/smes/2025-modules/module-12.pdf
Conferência em 18/08/2026.
IFRS Foundation - Supporting implementation of the third edition of the IFRS for SMEs Accounting Standard
https://www.ifrs.org/supporting-implementation/2025-ifrs-for-smes-supporting-materials/
Conferência em 18/08/2026.
IFRS Foundation - March 2025 IFRS for SMEs Accounting Standard Update
https://www.ifrs.org/news-and-events/news/2025/03/march-2025-ifrs-for-smes-accounting-standard-update/
Conferência em 18/08/2026.
Conselho Federal de Contabilidade - Normas simplificadas para PMEs
https://cfc.org.br/tecnica/normas-brasileiras-de-contabilidade/normas-simplificadas-para-pmes/
Conferência em 18/08/2026.