Vários CNPJs, vários balanços e uma só realidade econômica: quando os números do grupo podem enganar
Empréstimos, vendas, recebíveis, investimentos e resultados entre empresas relacionadas podem fazer o patrimônio, o faturamento e a liquidez parecerem maiores quando cada sociedade é observada isoladamente
Por Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade
Uma empresa possui R$ 2 milhões em caixa. Outra, pertencente à mesma estrutura empresarial, carrega R$ 1,5 milhão em dívidas bancárias. Uma terceira apresenta valores relevantes a receber das duas primeiras.
Separadamente, cada demonstração conta uma história.
A empresa com caixa elevado pode parecer confortável. A endividada pode transmitir maior risco financeiro. A terceira pode aparentar possuir uma carteira robusta de créditos.
Mas a leitura muda se parte do caixa da primeira veio de recursos captados pela segunda e parte das contas a receber da terceira representa dívidas das próprias empresas relacionadas.
Os registros individuais podem estar corretos. O problema surge quando a administração simplesmente soma balanços, receitas e ativos e interpreta esse total como se representasse a situação econômica real do grupo.
É justamente para evitar esse tipo de distorção que as demonstrações consolidadas assumem relevância.
O primeiro passo não é somar balanços, mas identificar se existe controle
Empresas com sócios em comum não formam automaticamente uma relação de controladora e controlada.
Também não basta existir participação societária.
Uma sociedade pode deter participação relevante em outra e, ainda assim, a análise precisar distinguir participação, influência e controle conforme o conjunto normativo aplicável.
Na NBC TG 1000 (R1), atualmente relacionada pelo Conselho Federal de Contabilidade entre os referenciais aplicáveis às pequenas e médias empresas, a Seção 9 trata das demonstrações consolidadas e separadas.
No padrão internacional, a terceira edição da IFRS para PMEs também mantém tratamento específico para esse tema.
Portanto, antes de discutir consolidação, é necessário compreender quem efetivamente controla quem.
Demonstração individual e demonstração consolidada respondem perguntas diferentes
O balanço individual procura responder:
Qual é a posição patrimonial e financeira desta empresa?
A demonstração consolidada procura responder:
Qual é a posição econômica da controladora e de suas controladas quando consideradas como uma única entidade econômica?
Essa diferença muda a leitura de caixa, dívidas, receitas, ativos e resultados.
| Situação | Empresa A | Empresa B |
|---|---|---|
| Caixa | R$ 600 mil | R$ 100 mil |
| Contas a receber | R$ 500 mil | R$ 350 mil |
| Dívidas | R$ 300 mil | R$ 700 mil |
| Empréstimo entre empresas | R$ 400 mil a receber | R$ 400 mil a pagar |
Na Empresa A, os R$ 400 mil aparecem como um direito.
Na Empresa B, os mesmos R$ 400 mil aparecem como obrigação.
Nas demonstrações individuais, esses registros possuem finalidade própria.
Na visão consolidada, entretanto, o grupo não pode apresentar simultaneamente R$ 400 mil a receber de si mesmo e R$ 400 mil de dívida consigo próprio.
Por isso, saldos recíprocos dessa natureza precisam ser eliminados conforme os procedimentos contábeis aplicáveis.
Somar os balanços não significa consolidar
Imagine que a Empresa A apresente R$ 5 milhões em ativos e a Empresa B, R$ 3 milhões.
A soma matemática resulta em R$ 8 milhões.
Mas isso não significa necessariamente que o grupo possua R$ 8 milhões em ativos economicamente independentes.
Parte desse valor pode decorrer de investimentos de uma empresa na outra, empréstimos intragrupo, contas a receber entre sociedades, adiantamentos, operações internas de compra e venda e outros saldos recíprocos.
A consolidação precisa identificar e eliminar efeitos que não representam relações econômicas com terceiros.
O faturamento somado pode mostrar um grupo maior do que ele realmente é
Considere um exemplo simples.
A Empresa A vende mercadorias por R$ 1 milhão para a Empresa B.
Depois, a Empresa B vende esses produtos para clientes externos por R$ 1,3 milhão.
Nas demonstrações individuais, a Empresa A registra receita de R$ 1 milhão e a Empresa B registra receita de R$ 1,3 milhão.
A soma produz R$ 2,3 milhões.
Mas o grupo não vendeu R$ 2,3 milhões para terceiros. Nesse exemplo, R$ 1 milhão surgiu de uma transação interna.
A receita efetivamente gerada perante clientes externos foi de R$ 1,3 milhão.
Essa diferença pode alterar análises de crescimento, porte, produtividade, margem e desempenho comercial.
O lucro individual também pode não representar lucro realizado pelo grupo
A mesma lógica vale para resultados gerados em transações internas.
Imagine que uma sociedade venda determinado ativo para outra empresa controlada e reconheça ganho nessa operação.
Se o ativo continuar dentro do grupo ao final do período, existe diferença entre o resultado reconhecido individualmente e o resultado efetivamente realizado pelo conjunto perante terceiros.
Dependendo da operação e dos critérios aplicáveis, determinados resultados intragrupo precisam ser eliminados na consolidação.
É justamente por isso que um fechamento contábil periódico ganha ainda mais importância quando o empresário opera por meio de várias sociedades.
A contabilidade precisa conseguir identificar com clareza quem vendeu, quem comprou, qual empresa possui saldo a receber, qual possui saldo a pagar e quais operações ocorreram efetivamente com terceiros.
O dinheiro pode estar em uma empresa e a dívida em outra
A análise da liquidez também pode mudar significativamente.
Empresa A
Caixa: R$ 2 milhões
Empresa B
Empréstimos bancários: R$ 1,5 milhão
Empresa C
Contas a receber: R$ 800 mil
Analisar apenas a Empresa A pode transmitir grande folga financeira.
Mas imagine que parte dos R$ 2 milhões tenha sido transferida pela Empresa B depois que ela contratou financiamento bancário.
O caixa ficou em um CNPJ. A dívida ficou em outro.
Para o conjunto econômico, entretanto, o endividamento continua existindo.
Uma empresa também pode pagar despesas de outra sem que isso fique evidente na leitura superficial
As relações financeiras entre sociedades podem assumir diversas formas.
- pagar fornecedores de outra;
- conceder empréstimos;
- realizar adiantamentos;
- adquirir ativos utilizados por outra sociedade;
- assumir determinadas despesas;
- prestar garantias;
- transferir recursos por contas correntes entre partes relacionadas.
Essas operações não são necessariamente inadequadas.
O problema surge quando não estão documentadas, classificadas e conciliadas adequadamente.
Investimentos societários também precisam ser eliminados na visão do grupo
A controladora pode registrar contabilmente sua participação em uma controlada.
Ao consolidar as demonstrações, os ativos e passivos da controlada também passam a integrar a visão econômica do conjunto.
Se o investimento registrado pela controladora fosse simplesmente mantido junto com todos os elementos patrimoniais da controlada, haveria dupla contagem.
Os procedimentos de consolidação evitam justamente esse efeito.
Os indicadores podem mudar significativamente
| Indicador | Soma simples | Após ajustes intragrupo |
|---|---|---|
| Receita | R$ 12 milhões | R$ 9,5 milhões |
| Contas a receber | R$ 3 milhões | R$ 2,4 milhões |
| Dívidas | R$ 4 milhões | R$ 3,4 milhões |
| Ativos | R$ 10 milhões | R$ 8,8 milhões |
Os balanços individuais não precisam estar incorretos para que exista essa diferença.
Eles simplesmente representam entidades juridicamente distintas.
A consolidação responde a outra pergunta: qual é a posição econômica do conjunto depois de eliminados determinados efeitos produzidos entre as próprias empresas?
Um grupo pode crescer nos relatórios sem vender mais para o mercado
Empresas que realizam muitas operações entre si podem apresentar crescimento relevante quando seus faturamentos são somados.
Mas esse aumento precisa ser separado entre receita gerada com terceiros e movimentação econômica interna.
Imagine que o faturamento agregado suba de R$ 20 milhões para R$ 28 milhões.
Se R$ 6 milhões do aumento decorreram de transações entre sociedades relacionadas, o crescimento perante clientes externos foi bem menor do que o número agregado sugere.
A criação de novos CNPJs deveria ser analisada também pela ótica contábil
Uma nova sociedade pode ser criada por razões operacionais, patrimoniais, comerciais ou estratégicas.
O empresário também pode adquirir participação em outro negócio ou transferir determinadas operações para uma nova empresa.
Essas decisões não deveriam ser avaliadas somente depois da implementação.
- controle;
- demonstrações individuais;
- consolidação;
- fluxo de recursos;
- endividamento;
- governança;
- distribuição de resultados;
- indicadores;
- análise de crédito;
- transparência.
Controles internos ganham importância à medida que o grupo cresce
Uma empresa com um único CNPJ pode manter determinado nível de controle.
Quando o empresário passa a operar com três, quatro ou mais sociedades, o número de relações possíveis aumenta rapidamente.
Passam a existir saldos recíprocos, empréstimos, rateios, pagamentos cruzados, investimentos, garantias, receitas internas e despesas internas.
Se cada departamento registrar essas movimentações de maneira diferente, a consolidação se torna mais demorada e sujeita a ajustes manuais.
Por isso, plano de contas, identificação de partes relacionadas e conciliações periódicas precisam acompanhar o crescimento da estrutura empresarial.
A análise individual continua necessária, mas algumas decisões exigem enxergar o conjunto
Cada sociedade continua precisando de suas informações contábeis próprias.
A visão consolidada não elimina essa necessidade.
O empresário passa a precisar das duas leituras.
Como está cada CNPJ?
Como está economicamente o conjunto que eu controlo?
Na avaliação de Cleiton Celini e Gledson Alves, sócios e contadores da AUDICONT Contabilidade, quando existem operações relevantes entre sociedades relacionadas, analisar apenas faturamento, caixa ou patrimônio individual pode produzir uma visão incompleta. A administração precisa saber quanto dos resultados decorre efetivamente de negócios com terceiros e quanto representa movimentação interna.
Esse tipo de leitura também amplia a utilidade da consultoria e planejamento contábil, porque transforma uma estrutura formada por vários CNPJs em informação econômica compreensível para a tomada de decisão.
Existe uma proposta internacional sobre consolidação, mas ela ainda não está aprovada
Em maio de 2026, o IASB publicou um Exposure Draft propondo uma alteração específica na terceira edição da IFRS para PMEs.
A proposta discute uma possível exceção à apresentação de demonstrações consolidadas para determinadas controladoras intermediárias em situações específicas relacionadas a entidades de investimento.
A consulta pública internacional permanece aberta até 9 de setembro de 2026.
Portanto, na data desta matéria, trata-se de uma proposta.
Não deve ser tratada como regra vigente, obrigação já aprovada ou exceção já disponível para aplicação automática.
A terceira edição entra em vigor internacionalmente em 2027, mas isso não significa adoção automática no Brasil
A terceira edição da IFRS para PMEs possui vigência internacional para períodos anuais iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027, com aplicação antecipada permitida dentro do padrão internacional.
Essa data não determina, sozinha, a obrigação das empresas brasileiras.
Cada jurisdição define quais entidades podem ou devem utilizar a IFRS para PMEs.
No Brasil, devem ser observadas as Normas Brasileiras de Contabilidade efetivamente aplicáveis ao enquadramento de cada entidade.
O Conselho Federal de Contabilidade atualmente relaciona, entre os referenciais simplificados, normas como NBC TG 1000 (R1), NBC TG 1001, NBC TG 1002, ITG 1000 e CTG 1000.
Assim, acompanhar a evolução internacional é importante, mas vigência internacional e aplicação brasileira não devem ser tratadas como a mesma coisa.
FAQ
1. Toda empresa que possui participação em outra precisa consolidar demonstrações?
Não. É necessário analisar se existe controle e qual norma contábil se aplica à entidade. Ter participação societária, por si só, não significa necessariamente controlar outra empresa.
2. O que são demonstrações contábeis consolidadas?
São demonstrações que apresentam a controladora e suas controladas como uma única entidade econômica, depois da aplicação dos procedimentos e eliminações previstos nas normas pertinentes.
3. Consolidar significa somar os balanços?
Não. A consolidação exige ajustes e eliminações de determinados investimentos, saldos, transações, receitas, despesas e resultados existentes entre empresas do próprio grupo.
4. Por que empréstimos entre empresas são eliminados?
Porque, na visão consolidada, o grupo não pode apresentar simultaneamente um direito a receber de si próprio e uma obrigação consigo mesmo. Juridicamente, entretanto, o crédito e a dívida continuam existindo entre as sociedades.
5. Por que a receita consolidada pode ser menor que a soma do faturamento das empresas?
Porque uma parcela das receitas individuais pode ter sido gerada por operações realizadas entre empresas do próprio grupo, e não com clientes externos.
6. A exceção de consolidação proposta pelo IASB já pode ser utilizada?
Não. Em 20 de agosto de 2026, a alteração ainda está em consulta pública internacional até 9 de setembro de 2026 e não constitui uma regra vigente.
Fontes consultadas
IFRS Foundation - Consolidation Exception - Proposed amendments to the IFRS for SMEs Accounting Standard
Proposta publicada pelo IASB sobre uma possível exceção específica à apresentação de demonstrações consolidadas. Consulta pública aberta até 9 de setembro de 2026.
Conferência em 20/08/2026.
IFRS Foundation - IFRS for SMEs Accounting Standard
Informações oficiais sobre a terceira edição da norma e sua vigência internacional para períodos iniciados em ou após 1º de janeiro de 2027.
Conferência em 20/08/2026.
IFRS Foundation - June 2026 IFRS for SMEs Accounting Standard Update
Atualização oficial relacionada ao projeto de exceção de consolidação e ao processo de implementação da terceira edição.
Conferência em 20/08/2026.
Conselho Federal de Contabilidade - Normas Simplificadas para PMEs
Relação dos referenciais brasileiros atualmente apresentados pelo CFC para pequenas e médias empresas e demais entidades abrangidas.
Conferência em 20/08/2026.